Internacional: Krugman diz que Trump não faz a menor ideia de como funciona comércio internacional

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O economista norte-americano premiado com um Nobel dedica o seu último artigo no “New York Times” a desmontar os erros da política económica do Presidente Trump. Fala de “ignorância”. Chama-lhe “o homem do défice”. Diz que as suas políticas são a melhor prova dos “erros da sua visão” e fundamenta todas as acusações. Mais: reitera que o pânico da dívida há alguns anos “não teve qualquer sentido”. Há um “tweeter in chief”, sim. Mas, no final, temos sempre a economia

Primeiro, uma constatação irrefutável: os republicanos sempre detestaram os défices. Pelo menos, sempre disseram isso. E na administração do anterior Presidente, o democrata Barack Obama, o Partido Republicano fez disso uma bandeira, repetindo incessantemente que os EUA iriam enfrentar uma crise fiscal ao estilo grego a qualquer momento.

Já Donald Trump “concentrou a sua ira nos défices comerciais”, insistindo numa ideia base: os empregos dos americanos e a riqueza do país estavam a ser dados a outros países. Mas dois anos depois temos “um défice orçamental num nível sem precedentes”, à exceção dos tempos de guerra e dos períodos imediatamente posteriores às grandes crises económicas, e “o défice comercial também atingiu um valor recorde”, destaca Paul Krugman, prémio Nobel da Economia em 2008, no mais recente artigo que assina no jornal “The New York Times”.

Krugman é, desde logo, o primeiro a reconhecer que “nem o défice orçamental nem o défice comercial representam um grande perigo para a economia dos EUA”. Os países desenvolvidos que têm empréstimos nas suas próprias moedas podem acumular grandes dívidas, e fazem-no com alguma frequência sem consequências drásticas. E por essa razão reitera que o “o pânico da dívida vivido há alguns anos não teve qualquer sentido”.

No entanto, “os défices gémeos de Trump dizem-nos muito sobre o tweeter in chief e o seu partido”, afirma Krugman. Porquê? Mostram que são “desonestos, ignorantes”. E “quanto à desonestidade: ainda há alguém que acredita que os republicanos realmente se importam com a dívida e com o défice?”

O economista sustenta que a falsidade da postura fiscal sempre foi óbvia. Toda essa retórica, aliás, não passava de uma tentativa de bloquear e minar a agenda de Barack Obama, até porque no momento em que tiveram a oportunidade nas suas mãos, os políticos que tanto defendiam a responsabilidade fiscal “deram benefícios fiscais às corporações e aos ricos”, sublinha. “E esse corte fiscal é a causa principal da explosão do défice orçamental”, acrescenta.

“Ah, e o corte de impostos falhou completamente o objetivo do boom de investimento prometido. As empresas não usaram seus lucros gigantescos para construírem novas fábricas e aumentarem a produtividade. Usaram-nos para para recomprar muitas ações, transferindo esses ganhos para os investidores endinheirados”, diz Krugman.

Também aponta o dedo “à ignorância”, recordando que muitos avisaram “inutilmente” que Trump estava “completamente errado sobre os défices comerciais”. É verdade que, num cenário de desemprego elevado, o défice pode agravar o problema. Mas quando tudo está a correr dentro da normalidade, o défice não significa “redução do emprego geral, nem nos torna mais pobres”.

“I´m a tariff man”

Na visão de Krugman, do ponto de vista económico tudo é simples de explicar. O que se passa num caso como este é exatamente o oposto de um problema: “Outros países enviam-nos bens e serviços valiosos, pelos quais pagamos com pedaços de papel – papel esse que paga taxas de juros muito baixas”.

Assim, “Trump está completamente errado sobre o que causa os défices comerciais” e “as suas políticas são uma lição objetiva dos erros da sua visão”, sustenta.

No “universo trumpiano, há défices comerciais porque fizemos maus acordos –deixámos os estrangeiros venderem suas coisas aqui (nos EUA), mas eles não nos deixam vender as nossas coisas nos países deles”. Nesta visão simplista do mundo, a solução é lançar barreiras alfandegárias sobre os produtos estrangeiros e Trump pode proclamar com orgulho “I´m a tariff man”, para deixar claro que é o Presidente das tarifas aduaneiras.

A realidade, no entanto, é que os défices comerciais têm pouco a ver com tarifas ou outras restrições comerciais. E para perceber isso bastam algumas noções simples de contabilidade como esta: “O défice comercial global é sempre igual à diferença entre as despesas com o investimento doméstico e a poupança interna (privada e pública)”. Assim, na visão de Krugman, a razão pela qual a América gera défices comerciais persistentes não é ter aberto demasiado as portas do país em termos comerciais, mas sim ter um nível de poupança baixo comparativamente a outros países”.

Olhando para 2018, o que a política das tarifas aduaneiras de Trump prova é que pode haver uma quebra acentuada das importações dos bens penalizados, mas as importações de outros bens aumentaram e o desempenho das exportações não foi bom. No final, explica Krugman, “o défice comercial global subiu substancialmente, exatamente como seria de prever”, e a redução de impostos que veio beneficiar os mais ricos trouxe uma redução do lado das receitas.

E a suposta causa do défice não é o único erro da política comercial de Trump, alerta o Nobel da Economia. Se o enorme défice comercial não representa uma ameaça imediata à economia dos EUA e os danos provocados pela guerra comercial de Trump podem, até ser limitados, o “custo principal” de tudo isto “é a credibilidade dos EUA”.

Os “défices gemeos” de Trump provam que os republicanos têm mentido sobre as suas prioridades políticas e, conclui Krugman, mostram que “ele é completamente ignorante” sobre esta questão política base do seu mandato.

Uma nota positiva final? “Felizmente, uma grande nação como a América pode sobreviver a muita coisa, desonestidade e ignorância no topo (do comando do país) incluídas”.

Fonte: Jornal “Expresso”

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